Por Carlos R. Dean
Lembro-me que estávamos brincando como
sempre fazíamos assim que eu chegava do trabalho lá pelas cinco e meia da
tarde. Como a grande maioria das pessoas fazem com seus cães, acredito, quando
eu o acertei na pata sem querer e ele me lançou aquele olhar. Nunca mais me
esqueceria daquele olhar. Ele andava estranho já a alguns dias, sempre quieto,
observando, introspectivo. Era como se seus olhos estivessem camuflados com o
resto do rosto, aqueles olhos brilhantes, que saltavam amigáveis sempre alerta
para a possibilidade de uma lambida agora me encaram em busca de ... Ele está
claramente ofendido com a bolada que lhe acertei. Não entendo como poderia, mas
está. Posso ver que ele quer se vingar, posso sentir o que ele está pensando.
Eu tento jogar a bolinha de novo. – Vamos amigo, pega! – A bola passa perto de
seu focinho. Ele a segue com a cabeça, a inclina um pouco para trás. Por um
momento acho que ele vai atrás dela como sempre faz, mas ele volta a olhar para
mim. Aqueles olhos. Deus, aqueles olhos. Se não fosse uma ideia tão absurda de
acreditar eu diria que ele está me desafiando. Sabem nos filmes quando o
dinossauro, o leão ou o monstro esperam o momento certo para atacar e acabar
com a sua vida de maneira violenta para você e deliciosa para eles?
Me arrisco dizer que é quase como um
desafio, um convite. – Por favor jogue ela em minha pata de novo. Me dê só um
motivo. Imagino ele falando se pudesse.
Essa disputa de olhares começa a ficar
cansativa, mas não posso ser o primeiro a desviar o olhar. Sei que mais uma vez
posso soar ridículo dizendo isso, mas não posso mostrar fraqueza. É loucura,
mas é o que sinto. Então, talvez se cansando ou simplesmente desistindo ela
vira em direção a porta e volta para sua casinha no quintal. Ou quem sabe isso
talvez tenha sido somente um aviso. Provavelmente é só a idade eu penso tão
logo tiro essas ideias da cabeça e sigo minha vida normalmente, sem saber que
essa seria apenas a primeira de muitas coisas estranhas e inacreditáveis que
meu amigo César faria antes de descobrir, que meu amigo, já estava morto.

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