A História de César - Capitulo Um - John Torres

Por Carlos R. Dean

      Lembro-me que estávamos brincando como sempre fazíamos assim que eu chegava do trabalho lá pelas cinco e meia da tarde. Como a grande maioria das pessoas fazem com seus cães, acredito, quando eu o acertei na pata sem querer e ele me lançou aquele olhar. Nunca mais me esqueceria daquele olhar. Ele andava estranho já a alguns dias, sempre quieto, observando, introspectivo. Era como se seus olhos estivessem camuflados com o resto do rosto, aqueles olhos brilhantes, que saltavam amigáveis sempre alerta para a possibilidade de uma lambida agora me encaram em busca de ... Ele está claramente ofendido com a bolada que lhe acertei. Não entendo como poderia, mas está. Posso ver que ele quer se vingar, posso sentir o que ele está pensando.
      Eu tento jogar a bolinha de novo. – Vamos amigo, pega! – A bola passa perto de seu focinho. Ele a segue com a cabeça, a inclina um pouco para trás. Por um momento acho que ele vai atrás dela como sempre faz, mas ele volta a olhar para mim. Aqueles olhos. Deus, aqueles olhos. Se não fosse uma ideia tão absurda de acreditar eu diria que ele está me desafiando. Sabem nos filmes quando o dinossauro, o leão ou o monstro esperam o momento certo para atacar e acabar com a sua vida de maneira violenta para você e deliciosa para eles?
     Me arrisco dizer que é quase como um desafio, um convite. – Por favor jogue ela em minha pata de novo. Me dê só um motivo. Imagino ele falando se pudesse.

     Essa disputa de olhares começa a ficar cansativa, mas não posso ser o primeiro a desviar o olhar. Sei que mais uma vez posso soar ridículo dizendo isso, mas não posso mostrar fraqueza. É loucura, mas é o que sinto. Então, talvez se cansando ou simplesmente desistindo ela vira em direção a porta e volta para sua casinha no quintal. Ou quem sabe isso talvez tenha sido somente um aviso. Provavelmente é só a idade eu penso tão logo tiro essas ideias da cabeça e sigo minha vida normalmente, sem saber que essa seria apenas a primeira de muitas coisas estranhas e inacreditáveis que meu amigo César faria antes de descobrir, que meu amigo, já estava morto.

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