Por Carlos R. Dean
Pela primeira ele sentia a sorte soprar ao seu favor. A casa era antiga, mas bem conservada, a madeira era solida, a tinta bege e branca que a camuflava no meio da vegetação ainda era viva. Não havia cercas, e o morro que se formava nas margens do rio era alto suficiente para escondê-la e proteger em épocas de cheia. Embora a vegetação estivesse grande e malcuidada era possível perceber as linhas que a delineavam. Chegando mais perto da casa enquanto abria caminho pelo pasto alto pode ver alguns arbustos escondidos com a falta de manutenção do jardim, mostrando que há algum tempo provavelmente era cuidada por alguém. A quanto tempo estaria abandonada? A julgar pelo tamanho da selva que se formou ao redor a alguns meses. Quatro ou cinco. Talvez menos já que estávamos nas estações de chuva e sol.
Foi se aproximando das janelas com cuidado. As da sacada e lateral estavam fechadas mas encontrou uma nos fundos quebrada com alguns pequenos roedores mortos espalhados pelos seus arredores. Os animais pareciam ter sido dilacerados por alguma fera. Era melhor se manter atento.
Com o vidro quebrado conseguiu enfiar o braço e abrir a tranca interna. Logo que entrou na casa pode sentir o ar pesado, espeço, quase como se tivesse que abrir caminho com as mãos para passar por ele. Cada nervo de seu corpo o reconhecia como a morte. Abriu a porta do cômodo que estava cheio de sacos de grãos, deveria ser a dispensa. Pode ver batatas, cenouras e mais outras coisas que não saberia reconhecer mas tinha certeza que poderia come-las. Abriu a porta que dava para um pequeno corredor e o cheiro foi imediato. Tapou o nariz com o braço e estava certo, era a morte. Somente uns poucos passos e pode ver o corpo no quarto com a porta aberta. Dormia pela eternidade em sua cama, virado de lado, coberto até os ombros, com a expressão de quem morreu assim. De repente o peso do ar se dissolveu, e a sensação de morte agora se transformava em esperança.
Coisa estranha
para se sentir diante de uma imagem dessas, mas ele achava que a palavra era a
mais justa e sincera que poderia existir diante daquela situação. O resto dos cômodos
eram simples, algumas poltronas, alguma tecnologia caseira, um velho fogão com
forno, uma mesa grande em formato de ” L” provavelmente das mesmas toras que
foi feita a casa. Havia do lado desse grande cômodo um menor, com várias estantes
e livros, muitos cadernos e uma poltrona que ficava em baixo de uma janela. Se viu
diante de um sentimento de calma e melancolia vendo aquele cômodo. Sentou na poltrona,
aliviado, se permitiu sorrir e se sentir feliz.
A casa e os utensílios
nela pareciam ter sido feitos especificamente para ela, provavelmente deve
existir uma oficina no galpão que avistou no fundo. Isso é bom, seu braço
precisa de upgrades. Pode limpar tudo, plantar, tem água do rio ao lado, peixes
e caça certa na floresta. Está bem, está feliz e aliviado.
Mas primeiro é preciso enterrar nosso anfitrião.
Obrigado
estranho, que você tenha vivido bem, que sua jornada tenha sido útil e
gloriosa, que você tenha feito tanta diferença no mundo na sua vida quanto está
fazendo nesse momento de sua morte. Seu jardim será lindo. Eu, Cactus Brown, assim prometo.
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