Pequeno Prólogo De Um Jovem Artista

Por Carlos R. Dean.

 O jovem aspirante a escritor joga enfurecido e frustrado seu copo de plástico vazio na parede no canto do quarto
     - Droga! – Esbraveja enquanto pensa em uma nova história. – Nunca vou conseguir escrever esse conto. Mulher solteira pregadora de um futuro meio distante, espaço sideral e tampa de lata de lixo. Seria mais fácil escrever sobre um grampeador albino com problemas de autoestima e dupla personalidade do que isso. Ele pensa irritado
     Levanta, pensativo e desanimado, a procura do copo que acabara de lançar em algum lugar da bagunçada quitinete quando uma claridade terrível invade os trinta metros quadrados que ele chama de lar. A primeira coisa que ele pensa é em algum farol de carro, mas em seguida se lembra de que está no 13° andar. Nos poucos segundos enquanto se vira para olhar pela janela atrás de si sente o chão tremer e então a claridade aumenta no mesmo instante que sua janela explode inundando seu quarto de fogo, vidro e fumaça. Ele vê uma tampa de metal de alguma lata de lixo voar em direção aos seus olhos. A surpresa e pavor são tantos que ele nem percebe quando ela voa sobre ele jogando-o para o lado. O jovem aspirante a escritor, agora no chão, enxerga em seu piso o reflexo das chamas enquanto luta para retomar o controle de sua mente desorientada que agora está totalmente travada.
Ele enxerga uma bota e cano longo, do tipo que já viu a polícia de choque usando, porem essas são de uma mistura de couro e metal, quase tem certeza de ver alguns circuitos e então é sacudido antes de poder terminar essa análise. Vê uma mulher, não mais velha que ele, certamente, porem com aspecto muito mais imponente e perigoso do que ele jamais teria.
     - Levante! O que você ainda está fazendo aí deitado? Rápido, eles estão vindo. Levanta garoto!
     O jovem levanta rápido, confuso, vê seu pequeno e nada aconchegante lar destruído, as chamas queimam tudo o que encontram instigadas pelo vento que entra no canto onde antes ficava sua cama e uma janela, e onde agora, enxerga a rua através do grande buraco que se abriu com a explosão.
     A jovem estranha para na beira do buraco em sua parede, parece estar analisando uma possível rota de fuga, mas desiste rapidamente se virando para o jovem aspirante a escritor.
     - Como saímos daqui? Rápido! Pergunta a garota.
     - Pela cobertura. Responde sem nem ao menos pensar a respeito. Por que eu disse isso pensa. Nunca nem fui na cobertura. Mas a garota já está se pondo a caminho e ele acha melhor segui-la de qualquer maneira. Tem a sensação que se não ficar junto a ela será morto sem sombra de dúvidas.
     - Para que lado? Ela pergunta apressada. – Vamos, acorde. Eu preciso de você. Para que lado?
     - Por aqui, a direita. Ele responde e então se coloca a caminho da escada que leva ao terraço. - São apenas dois andares. Eles sobem as escadas depressa. Primeiro lance. Segundo lance. Terceiro lance. Quarto lance. São mais que dois andares pensa. Então chegam a porta que dá para o terraço do prédio. Está trancada. Ele a força, mas sem êxito.
     - Saia da frente. Ela manda enquanto, num movimento tão rápido, que o jovem não acreditaria se não tivesse visto com seus próprios olhos, puxa uma arma estranha presa em uma espécie de coldre embaixo do braço esquerdo e atira na fechadura da porta de metal. Ela explode abrindo um buraco do tamanho de sua mão na fechadura. Faíscas de metal em brasa caem no seu braço e queimam superficialmente sua pele. Eles se deslocam rápido e chegam ao terraço onde podem ver os prédios vizinhos. O seu era o mais alto do quarteirão e dos quarteirões próximos. Eles correm até a borda e o jovem não acredita no que vê.
     Uma espécie de aranha gigante, meio animal meio maquina entrando no buraco onde antes ficava a parede de seu lar de trinta metros quadrados.
     - O que é aquilo? Quem é você? Ele pergunta horrorizado encarando a garota. Ainda não havia percebido como ela era linda. Cabelos negros presos no alto da cabeça caindo pelos ombros. Olhos de um castanho esverdeados salpicados de amarelo. Amarelo? Ele questiona. Sim amarelo. Nariz pequeno e bem delineado, feições delicadas e ao mesmo tempo perigosas. Mas agora não é momento de prestar atenção nessas coisas. Ele pensa tentando recobrar o que ainda lhe resta de consciência.
     - Preste bem atenção porque só vou falar uma vez e então vamos correr daqui o mais rápido possível. Me chamo Irulahn, irmã de Cactus. E você precisa vir comigo agora.
     - Irmã de quem? Estamos na cobertura e aquela coisa está entrando. Como vamos sair daqui?
     Irulahn olha em volta, aqueles olhos analisam tudo com tanta rapidez e precisão que o jovem mal tem tempo de pensar nisso antes dela decidir o que fazer.
     - Por aqui. Ela diz e aponta para o lado do centro. Os prédios em volta são mais baixos, podemos pular e passar por eles.
     - Pular? Você é maluca. Mas antes de conseguir terminar sente o chão tremer mais uma vez e tem a certeza de que o prédio vai cair a qualquer instante. Sem pensar ele corre na direção que ela mostrou e pula. Irulahn pula logo atrás agarrando-o no ar. O que de fato o ajudou, pois sem esse impulso, o jovem nada atlético e sedentário, certamente teria caído. Caem de mal jeito rolando de lado no chão duro de concreto. A jovem levanta rapidamente. Ele sente uma dor cegante em seu cotovelo direito.
    - Levante garoto. Rápido!
     O jovem levanta e eles mais uma vez estão correndo em direção ao parapeito do prédio. Jogam-se em direção ao próximo, dessa vez Irulahn não precisa ajuda-lo. A adrenalina já está fazendo seu trabalho. Ele cai desajeitado e levanta rápido ignorando a dor que agora se apodera de suas costelas. Pulam para o próximo prédio e se escondem atrás do parapeito.
     - Fique quieto. Ela manda, mas agora menos ríspida e autoritária. Quase gentil.
Eles observam a criatura indo para outra direção. E então se acalmam um pouco.
     - Será que agora pode me explicar o que está acontecendo aqui. Ele pergunta novamente apavorado e confuso.
     - Nosso tempo é curto, portanto preste a atenção. Quando tivermos tempo contarei mais. Venha. E levanta em direção a porta que do acesso ao prédio. O jovem a segue. Ela faz menção de ir na direção das escadas, mas ele opta pelo elevador. São somente 9 andares. Enquanto estão no elevador descendo ela fala.
     - Venho de um futuro não muito distante desse. Resumidamente ferramos com o planeta e conquistamos o espaço sideral. E então ferramos com ele também e voltamos para a terra. Eu sou Irulahn, a pregadora de Nova Batente. Você terá uma neta, que eles acreditam, e aponta na direção de onde vinha a criatura, destruirá seus planos e salvara a humanidade, o que acabaria com seus lucros sobre a vida. Então mandaram alguém para eliminá-lo. O que eles não contavam e que mais alguém também acredita e está disposto a interferir. Então aqui estou eu. Salvando sua pele.
     Terceiro andar mostra o indicador digital.
     - Espere um pouco. Você é uma pregadora do futuro que viaja pelo espaço sideral e veio me salvar? Por acaso você também é solteira?
     Irulahn parece espantada e confusa com a pergunta, mas responde.
     - Sou!? Mas por que isso é importante afinal. Ela indaga irritada.
     - Nada não. Ele responde e ela percebe a confusão em seus olhos.
    O elevador apita e abre as portas. Chegaram ao térreo. Seguem em direção a saída, mas o rapaz volta e começa a mexer na mesa do porteiro. Pegas algumas folhas de papel e uma caneta.
    - Para que você precisa disso. Ela pergunta.
    O jovem aspirante a escritor responde, com um sorriso disfarçado no canto dos lábios e olhos brilhantes e estranhamente felizes.
    - Preciso escrever um conto. 

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